Entenda como o uso de figuras dos animais ganhou espaço na liturgia e se tornou símbolo na Idade Média. Leia!
Ao longo dos séculos,tornou-se comum a utilização de símbolos animais na liturgia da Igreja Católica, seja para se referir a Cristo, como à própria Igreja. O próprio Cristo se apresentou como Cordeiro de Deus.
Nos primeiros séculos da Igreja, os cristãos das primeiras comunidades, especialmente no tempo das perseguições, começaram a usar com muito mais frequência esses elementos mais que puramente decorativos, sendo incorporados à liturgia primitiva, à catequese e à ornamentação de espaços sagrados como as catacumbas e os primeiros sarcófagos.
O peixe, o cordeiro, a pomba, a fênix, o touro, a águia eram algumas das figuras mais utilizadas.
Quando chegamos à Idade Média, outras figuras passaram a ser utilizadas, entre elas a do pelicano, que depois se torna elemento comum ao se referir à Eucaristia.
Significado litúrgico e eucarístico
O pelicano entrou para o simbolismo cristão como emblema de Jesus Cristo, de seu sacrifício amoroso na cruz e de sua presença na Eucaristia.
Antes, a grande ave era chamada de “pélekos” pelos gregos ligados ao conceito de “machado” devido ao formato de seu bico.
O pelicano vive na Europa Oriental, no sudoeste asiático e Norte da África, sendo uma ave majestosa, com um bico longo e largo.
Frequentemente suas penas são manchadas de vermelho por causa do sangue das presas que captura para com elas alimentar os seus filhotes. Esse detalhe provavelmente foi o que deu origem à lenda de que o pelicano lacerava seu próprio corpo para manter vivos os filhotes.
Na verdade, a lenda medieval conta que, ao encontrar seus filhotes mortos no ninho por um predador, a ave chora desesperadamente e bica o próprio peito para alimentar os filhotes com seu próprio sangue, sacrificando sua vida para tentar trazê-los de volta.
Essa história passa a simbolizar o amor supremo, a doação e o autossacrifício, comparado com o de Cristo, que morreu na cruz para resgatar a humanidade.
A lenda, porém, se origina de uma interpretação naturalista equivocada, porque, para alimentar os filhotes, o pelicano curva o bico em direção ao peito para regurgitar o peixe capturado, dando a impressão de rasgar o próprio peito.
A crença está codificada no “Physiologus”, um texto naturalista-teológico escrito em Alexandria, no norte do Egito, no século II, bastante difundido na Idade Média, pelo qual o cristianismo transformou o gesto de alimentar os filhotes com o próprio sangue num emblema do sacrifício de Jesus na Eucaristia.
Alguns dos Santos Padres da Igreja, como São Jerônimo, popularizaram ainda mais a analogia ao comentar passagens bíblicas como o Salmo 102, e figuras importantes da Igreja, como Santo Tomás de Aquino, usaram essa metáfora em hinos eucarísticos da Igreja.
No hino “Adoro Te Devote”, Jesus é chamado de “Pie Pelicane, Iesu Domine” (Ó Pelicano piedoso, Senhor Jesus).
Por outro lado, existe um texto bizantino atribuído ao pseudo-Epifânio de Salamina, datado entre os séculos V e XI, que representa uma mãe que dá a vida aos seus filhos.
O grande Dante Alighieri citou a mesma metáfora no Canto XXV do Paraíso, na Divina Comédia, definindo o apóstolo João como aquele que “se deitou sobre o peito do nosso pelicano”:
“Este é aquele que repousou sobre o peito do nosso pelicano, e esses eram na cruz para o grande ofício escolhido” (Dante Alighieri – A Divina Comédia. Paraíso – Canto XXV – vv. 112-114).
Por esta razão, nas igrejas medievais e renascentistas, a figura do pelicano alimentando os filhotes frequentemente é representada em sacrários, em frontais de altares, em afrescos, bordada em vestes sagradas ou usada em vitrais, sendo conhecida na arte litúrgica pela expressão latina “Pelicanus matris” ou “Pelicano Solitário”, em referência ao Salmo 101: “Similis factus sum pellicano solitudinis”.