Santo Afonso reflete sobre o sentido cristão da morte

Ao meditar sobre a morte e os Novíssimos, Santo Afonso de Ligório destaca a importância de viver na graça de Deus e buscar a santidade durante a vida.
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Em suas obras, Santo Afonso de Ligório convida os cristãos a refletir sobre a morte, a salvação eterna e o valor dos bens que permanecem na eternidade.

No segundo volume da obra Meditações para todos os dias do ano, Santo Afonso de Ligório, fundador da Congregação Redentorista, apresenta uma comovente história. Ele conta que um rei da Espanha, vendo chegar o momento de sua morte, mandou chamar o filho que seria seu herdeiro e, entreabrindo as vestes reais, mostrou-lhe o peito corroído de vermes, exclamando: “Veja, príncipe, como é que se morre, e para onde vão parar as grandezas do mundo.”

Depois, ofegante, exclamou: “Quem me dera ter sido um simples frade de qualquer ordem religiosa e não um monarca!”

Ao mesmo tempo, mandou que um cordão com uma cruz de madeira fosse colocado em seu pescoço, dispondo tudo para seu último momento. Ele então acrescentou: “Meu filho, eu quis que você estivesse presente nessa hora para poder ver bem como o mundo trata os próprios reis na hora de sua morte. Quem tiver vivido bem, encontrará o melhor lugar junto de Deus!”

Esse filho seria depois o rei Felipe II, que por sua vez, quando estava morrendo com apenas 23 anos de idade, disse: “Meus súditos, no meu elogio fúnebre não falem nada a não ser daquilo que vocês estão vendo agora. Digam que, na hora da morte, de nada adianta ser rei, senão o ato de sentir maior tormento de ter sido.”

Em seguida, exclamou: “Quisera Deus que eu nunca tivesse sido rei, vivendo no deserto a serviço de Deus! Dessa forma, agora eu poderia me apresentar com mais confiança ao tribunal de Deus, sem correr o risco de me condenar.”

Na mesma obra, Santo Afonso apresenta também o exemplo de Santa Teresa, de quem era profundo devoto e admirador.

Santa Teresa afirmava que não se deve fazer caso daquelas coisas que prejudicam a nossa vida e a salvação eterna. Disse ela que a verdadeira vida consiste em viver de tal maneira que não seja necessário recear a morte. Se desejamos ver o que realmente valem os bens desse mundo, devemos considerá-los com os olhos fitos na morte ao afirmar que: “as honras, as dignidades, os prazeres e as riquezas acabarão um dia. Dessa forma, devemos nos preocupar em nos fazer santos e ricos somente daqueles bens que nos acompanharão na eternidade e que nos tornarão bem-aventurados para sempre.”

Montagem Rafael Camargo/A12
Santo Afonso: mestre da oração (Montagem Rafael Camargo/A12)

Meditação sobre as “últimas coisas”

O fundador dos redentoristas, Santo Afonso de Ligório, escreveu outro livro sobre a mesma temática, publicado pela primeira vez em 1758, com o título Máximas eternas – Meditações para cada dia da semana. Na obra, ele enumera principalmente os artigos de fé relacionados aos Novíssimos (morte, juízo, inferno, paraíso) e à finalidade da criação, propondo auxiliar o cristão em seu exame de consciência, considerando a proximidade da morte e a necessidade de permanência no estado da graça em favor da salvação.

A meditação sobre as últimas coisas é necessária igualmente para leigos e sacerdotes. Tudo aquilo que os fiéis precisam meditar torna-se matéria para a pregação dos sacerdotes. Os fiéis leigos e os párocos, ambos destinatários da obra, estão ligados com as intenções do Santo Doutor, pela abordagem de um tema fundamental para a vida espiritual.

As realidades mais sombrias e realistas dos Novíssimos apresentadas por Santo Afonso devem ser consideradas com extrema seriedade, mesmo incutindo certo “temor” de perder a salvação. Elas se transformaram num dos temas fundamentais da pregação missionária, sobretudo nas Santas Missões. Nos antigos esquemas de missão, o sermão sobre as realidades pelas quais a pessoa passará a partir de sua morte era um dos últimos, em geral feito na sexta-feira após a celebração da Via-Sacra, como último chamado de atenção para os que teimavam em não buscar a conversão em sua vida ou não haviam se aproximado ainda do sacramento da penitência durante a missão.

Quem já teve oportunidade de visitar ou de conhecer por imagens o quarto de Santo Afonso nas casas históricas de Ciorani e Pagani, no sul da Itália, se recordará da presença de um crânio em sua mesa de estudo e trabalho, parte integrante das peças com as quais, na época, se mobiliava as celas dos religiosos. Na imagem de São Geraldo Majella também havia uma caveira colocada sob os seus pés com a mesma finalidade.

Na última edição do livro “Preparação para a morte”, escrito em 1762, contendo reflexões para o aperfeiçoamento da vida espiritual e rico subsídio para pregadores de retiros e de missões, existe também uma gravura das mais dramáticas, na qual se pode ver a agonia de uma pessoa moribunda e a imagem de um cadáver em decomposição, segundo um desenho do Santo preservado em Pagani. Esses detalhes foram ali colocados para dar a ideia de como ele valorizava a meditação sobre as últimas coisas, que também era recomendada aos pregadores em outras obras ascéticas.

Em consonância com seu fundador, os Missionários Redentoristas editaram diversas reimpressões e novas edições do Preparação para a Morte, em vários idiomas, até os dias atuais. Muda a linguagem de acordo com os tempos, mas a centralidade do tema e a preocupação com a salvação eterna permanecem na pregação missionária e na vivência cristã de ontem e de hoje.

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