Quando chamamos Maria de Rainha, o que isso significa?

a memória litúrgica de Nossa Senhora Rainha era celebrada no passado no dia 31 de maio, mas como ao longo do mês de maio já temos outras festas marianas, essa memória litúrgica foi transferida para oito dias após a festa da Assunção de Nossa Senhora.
Obra: Mari Bueno Arte Sacra

No dia 22 de agosto, a Igreja celebra a memória litúrgica de Nossa Senhora Rainha. É a mesma Mãe de Jesus, venerada sob o título de Rainha, conforme tantos outros títulos dedicados à Virgem Maria. Por isso, nós a saudamos como Rainha na oração da Salve-Rainha.

Maria é nossa Mãe e Rainha. Ao contemplarmos sua vida, somos convidados, como ela, a sair ao encontro dos irmãos e a anunciar o Evangelho. Não podemos guardar conosco a alegria que vem do Espírito Santo.

Assim como celebramos Cristo Rei, no encerramento do Tempo Comum, a Igreja celebra Nossa Senhora Rainha no mês de agosto. Maria é a Mãe de Deus, a escolhida e a humilde serva do Senhor. Ao invocá-la como Rainha, não a colocamos como uma soberana nos moldes das autoridades deste mundo. Ela continua sendo a serva humilde que ensina, acompanha e conduz seus filhos para Deus.

Maria, Rainha e Medianeira da paz

Nossa Senhora Rainha também é invocada como Medianeira da paz. Em sua Encíclica Ad Caeli Reginam, de 1954, o Papa Pio XII apresenta Maria como “Rainha e Medianeira da paz” e pede que os fiéis recorram a ela para que a paz alcance os povos ameaçados pelo ódio e pela violência.

Essa dimensão aparece de maneira especial na mensagem de Nossa Senhora de Fátima, que chama à oração, à conversão e à busca da paz. A devoção mariana, portanto, nos recorda que a verdadeira paz passa pela conversão do coração e pela abertura à vontade de Deus.

Maria também nos ensina a levar a esperança aos que sofrem. Nas bodas de Caná, ela percebe a necessidade dos outros e apresenta a Jesus a situação daquela família. Ao dizer aos servidores “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5), aponta para Cristo e nos ensina a acolher sua Palavra.

Da Assunção à realeza de Maria

O mês de maio é tradicionalmente dedicado de modo especial à Virgem Maria. Ao longo desse período, a Igreja celebra diferentes festas e memórias marianas, como Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Auxiliadora e a Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel. Também é comum, em muitas comunidades, a realização da coroação de Nossa Senhora ao final do mês.

A memória litúrgica de Nossa Senhora Rainha, porém, é celebrada atualmente em agosto. Antes da reforma do calendário litúrgico, a festa era celebrada em 31 de maio. Ela foi instituída pelo Papa Pio XII em 1954, por meio da Encíclica Ad Caeli Reginam. Após a reforma litúrgica pós-conciliar, a celebração foi transferida para 22 de agosto, oito dias depois da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, justamente para destacar a relação entre a glorificação de Maria e sua realeza.

Assim, em agosto, a Igreja contempla de maneira especial dois momentos ligados ao mistério de Maria: sua Assunção ao céu, celebrada em 15 de agosto, e sua realeza, celebrada oito dias depois.

Além disso, agosto é tradicionalmente dedicado, no Brasil, à reflexão e à oração pelas vocações. Maria, com seu “sim” ao chamado de Deus, permanece como exemplo para todos aqueles que são chamados a uma vocação e missão na Igreja.

Uma festa instituída por Pio XII

A festa de Santa Maria Rainha foi instituída pelo Papa Pio XII em 11 de outubro de 1954, por meio da Carta Encíclica Ad Caeli Reginam. O documento explica que a devoção a Maria como Rainha é muito antiga e que a Igreja, desde os primeiros séculos, dirigia a ela orações e cânticos como Rainha do céu.

Ao instituir a festa, Pio XII destacou que não estava propondo uma nova verdade de fé. A dignidade régia de Maria já estava presente na tradição da Igreja, nos escritos dos Padres, na liturgia e na devoção dos cristãos. O Papa quis, então, estabelecer uma celebração litúrgica própria para que essa realeza fosse reconhecida e honrada de maneira mais explícita.

O título de Rainha está ligado à dignidade de Maria como Mãe de Deus e à sua união com Cristo. A Encíclica recorda que ela é a Mãe do Rei divino, Jesus Cristo, e que sua realeza deve ser compreendida à luz da missão recebida por Deus.

Por isso, quando a Igreja chama Maria de Rainha, não a coloca acima de Deus nem separada de seu Filho. A realeza de Maria está inteiramente relacionada a Cristo. Ela é a Mãe que permanece junto do Rei e, com coração materno, intercede pelos seus filhos.

A “Salus Populi Romani” e Maria Rainha

No mesmo ano em que instituiu a festa, Pio XII realizou uma importante celebração em honra de Maria Rainha. Em 1º de novembro de 1954, na Basílica de São Pedro, o Papa coroou solenemente a venerada imagem de Maria Salus Populi Romani, expressão que significa “Salvação do povo romano”. Antes da coroação, pronunciou um discurso e uma oração em honra de Maria Rainha.

Na oração, Pio XII apresentou Maria como “Rainha e Senhora dos céus e da terra” e pediu que ela mostrasse aos seus filhos o caminho da santidade. A celebração aconteceu justamente no contexto do Ano Mariano de 1954, instituído para marcar o centenário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição.

Maria, nossa Mãe e Rainha

O intuito de celebrar Nossa Senhora Rainha é reconhecer a dignidade que Deus concedeu àquela que foi escolhida para ser a Mãe de seu Filho. A realeza de Maria, porém, está unida à sua humildade e ao seu serviço.

Maria não procura a própria glória. Ela aponta para Jesus. Foi assim em Caná, quando disse aos servidores: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). É assim também na vida da Igreja: sua presença materna conduz os cristãos ao encontro com seu Filho.

Ao celebrar Nossa Senhora Rainha, somos convidados a olhar para aquela que acolheu a vontade de Deus, permaneceu fiel ao longo de sua vida e acompanhou a comunidade dos discípulos. Ela é Rainha porque é Mãe do Rei e porque participa, de modo singular, da obra de seu Filho.

Celebremos, portanto, com alegria a memória litúrgica de Nossa Senhora Rainha. Peçamos sua intercessão pela humanidade, pelas famílias e pelos povos que sofrem com a violência e a divisão. Que Maria nos ensine a acolher Jesus, viver sua Palavra e trabalhar pela paz.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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