Há uma fome que começa no corpo, mas nunca termina nele. Há fome de pão, certamente, mas também de justiça, de dignidade, de presença, de futuro. No Magnificat, Maria canta a partir desse lugar profundo onde a esperança dos pobres encontra a fidelidade de Deus: “Enriqueceu de bens os famintos”.
Maria é mulher da Palavra porque se deixou habitar por ela. E a Palavra, quando encontra morada em nós, põe-nos a caminho. Foi assim com ela: depois da anunciação, não ficou fechada no mistério que recebera; partiu depressa para a casa de Isabel. Em Caná, percebeu a falta antes que alguém a dissesse. No Calvário, permaneceu quando quase todos tinham partido. Maria ensina-nos que a fé tem olhos, tem mãos e tem passos.
Maria conduz-nos a uma paz que não é silêncio diante da injustiça, mas fruto de relações reconciliadas e vidas restituídas à dignidade. O Magnificat continua a ser cantado sempre que alguém reparte o pão, levanta o caído, acolhe o esquecido e devolve esperança a quem já não esperava.
Talvez seja assim que Deus ainda hoje enriquece de bens os famintos: passando pelo coração e pelas mãos daqueles que consentem em fazer do amor uma forma concreta de justiça.