A história de Nossa Senhora da Soledade no Bom Jesus da Lapa

A devoção a Nossa Senhora da Soledade nasceu com a fundação do Santuário do Bom Jesus da Lapa (BA), superou dois incêndios e tornou-se símbolo de esperança.

Introduzida pelo fundador do Santuário do Bom Jesus da Lapa (BA), a devoção à co-padroeira atravessou incêndios, restauração e permanece viva entre os romeiros.

A devoção mariana no Santuário do Bom Jesus da Lapa (BA) entrelaça-se profundamente com a sua própria fundação, iniciada por Francisco de Mendonça Mar, que assumiu o nome de padre Francisco da Soledade, após a sua ordenação, em 1706, ano em que foi nomeado capelão local.

Ao adentrar as grutas sagradas, o fundador trouxe consigo a imagem de Nossa Senhora da Soledade, introduzindo uma devoção inspirada nas tradições católicas de Portugal, sua terra natal. Esta ligação teológica reflete a forte conexão entre a Paixão do Bom Jesus e as dores da Mãe Santíssima, simbolizando o luto, o silêncio e a perseverança na fé.

A trajetória da escultura mariana que ocupa este espaço sagrado é marcada por dois incêndios históricos, tornando a co-padroeira um verdadeiro símbolo de resiliência e fé. O primeiro ocorreu em 1903, quando um incêndio devastador atingiu o altar central.

Enquanto a imagem do Bom Jesus foi parcialmente poupada e posteriormente reconstruída, a escultura original da Soledade, uma vistosa imagem de roca em tamanho natural, com cerca de 1,5 metro de altura, protegida por uma cortina de damasco dentro de um oratório envidraçado, foi inteiramente destruída. Relatos de antigos moradores indicam que este altar original situava-se, exatamente, onde hoje se encontra o Altar do Imaculado Coração de Maria.

A ausência física da imagem provocou um grave vazio pastoral e teológico. Sem uma reposição imediata, as festividades e o foco pastoral concentraram-se, quase exclusivamente, na figura do Bom Jesus. Ao longo das décadas seguintes, a celebração dedicada à Virgem das Dores deixou de acontecer, apagando temporariamente a tradição mariana estabelecida pelo fundador.

A devoção só foi resgatada 49 anos depois, em 1952, quando o então capelão Monsenhor Turíbio Vilanova decidiu agir e encomendou, no Rio de Janeiro, uma nova escultura, em tamanho natural (1,60 m), para ser entronizada no altar.

Contudo, em 1971, logo após a festa da co-padroeira, as velas deixadas acesas no altar provocaram um segundo incêndio. A rápida intervenção do sacristão e de Dom José Nicodemos Grossi salvou a imagem de uma destruição total. Parcialmente carbonizada e sem os olhos, a imagem ferida não ficou escondida: num testemunho tocante de fé, ela saiu em procissão na festa de 1972, tornando-se o próprio retrato da resistência e da força do povo sertanejo diante das adversidades.

O restauro definitivo ocorreu em julho de 1973, quando uma renomada escultora de Salvador devolveu-lhe as feições originais, permitindo que a devoção resgatada reocupasse o seu lugar de honra.

Hoje, a festividade está consolidada como a segunda maior romaria do Santuário. A edição deste ano adotou o tema central: “O Bom Jesus, Filho da Virgem Maria, habita entre nós”, fundamentado no Evangelho de João (“Ele veio morar entre nós”, Jo 1,14) e alinhado à orientação pastoral da CNBB pela Campanha da Fraternidade sobre a temática da moradia.

Pe. Willian Sena de Oliveira, C.Ss.R. – 
Prefeito de Igreja do Santuário Bom Jesus da Lapa (BA)

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